quarta-feira, 23 de maio de 2012

Verossimilhança



[para katharina e nossa conversa]



Ontem nessas dinâmicas da vida que a mim não parecem meras coincidências, num papo taromántico com um amiga, falei de algo que me é delicado, essencial quanto ao entendimento sobre meu eu, sobre meu sendeiro [escolhido ou não], sobre etapas da minha vida.

Em mais uma sincronia, eu leio agora uma obra que mexeu muito comigo, pois além de ser da literatura hispano-americana fala dum feminino incompreendido, com traços do já sabido fantástico maravilhoso apreciado por mim, leio "Nadie me verá llorar" [ed. Francis] de Cristina Rivera Garza, escritora contemporânea mexicana.







Dizem que de médico e louco[a] todos temos um pouco.

Eu digo mais, todos teremos um pouco ou muito, em algum momento da vida do Eremita, del Ermitaño. 
Não é a idade o que determina esse estado, e sim a postura para com a vida e para consigo mesmo.

O primeiro se manifesta para todos, todos nós sempre cedo ou tarde seremos tomados por algum êxtase de loucura, saudável ou não, por um momento de desmesuramento, no outro pode ser que permaneçamos apenas traços de tempo, ou que ele nos engula e sintamos prazer em "eremitar" longamente.



A Eremita e A Louca de Joie de Vivre Tarot e Tarot das Bruxas / fotos: luciana onofre



Na obra ambas qualidades se sobrepõem, a protagonista é Louca e Eremita, e não se sabe nenhuma das duas. E não é esse  nível de demência o que denota a loucura clínica?

Com tudo há lampejos, lampejos de vida, de conexão com o exterior, lampejos de lembranças do passado, e passagens ou portas que expõem ao mundo real e cordato, pedaços da loucura eremita que enriquecem a vida daqueles que coexistem com os loucos.

Sem essa dança com a loucura andarilha do Tarot, desejar um Eremita seria quase improvável. 
Como saber confortável um andarilhar silencioso e com objetivos sem ter antes pairado sem eira nem beira pelo Mundo?

O Louco caminha, à esmo. Ele não pauta roteiro. Ele não planeja, o que vier é lucro, mas lucro para quê? com qual sentido? "Não sei!" grita o Louco, afinal ele busca desenfreadamente, isso é a sua gana.

O Eremita caminha na trilha, via de regra numa busca dum melhor espiritual, dum melhor para sua mente, num melhor encontrar a si mesmo.

O Louco precisa de contato para ser Louco, sem o parecer do outro não é Louco, apenas é ele, então para ganhar significância, valor, peso de Louco, ele precisa no seu andarilhar o socializar, precisa visceralmente do ser revestido de reconhecimento externo, como se dizer Louco sem plateia?  . 

Entretanto esse Louco pode conter em si [se consciente dessa necessidade para evoluir na trilha] ao Eremita, ele pode ir e vir sem pautar tempo limite para pairar, e  manifestar ao Eremita, no sentido de apreender daquilo que passa por ele, e por ele passa, valor para a construção do seu eu, quando o ciclo de andarilhar no Mundo passe.

O Eremita é Eremita per se, sem a autentificação da sua condição pelo social, se isso ocorre é apenas passível de peso para o social, para o coletivo, para ele não. 
Ele se sabe Eremita e ponto. 
Pois é devido a isso que ele deseja este status quo: não é premente a avaliação do outro, a categorização carece de peso já para ele. 
Seu andarilhar é interno, ele passeia pelos estados da vida e depura. 
Ele decanta o sentido, o emanado, o vivenciado para cimentar sua construção interna e externa como ser vivo.

Há porém mais além desses dois personagens/arcanos um outro que contêm a ambos e que dependendo do grau de habilidade ou experiência dela, ambos podem dar as mãos em equilíbrio e derivar num fazer extraordinário. 

Ela é A Sacerdotisa!



A Sacerdotisa do Joie de Vivre / foto: luciana onofre



Uma Sacerdotisa fervilha, de ideias, de emoções, e as mantêm em sigilo para poder erigir uma imagem/essência sólida como Sacerdotisa... 

Fervilha como  A Louca, ela não suprime jamais os lampejos, os insigths, os insumos constantes de sabedoria, de projetos pro devir... Como num caleidoscópio sua mente lhe apresenta milhões de pautas, de meios, de visões.

Detêm em si a calma e o silêncio do Eremita, sem isso tanto fervilhar viria a tona e seria apropriado indevidamente por outros, e assim o seu caráter de Sacerdotisa seria diluído.
Mas há uma tênue linha que delimita o cordato do Eremita e dela, e a loucura...

Quiçá por isso, ela, a Sacerdotisa seja tão impenetrável, tão hermética, tão impassível aos olhos dos outros.
Ela trava uma luta incessante!

Se espanta ao ver em si essa miríade de ideias infinitas, que jorram sem parar, e encara de frente seu estado silente, em solidão autoimposta, permeada de um saber secular, oriundo de muita introspecção e autoconhecimento, e de saber plenamente que seu zelo para com tudo o que carrega em si, não é a toa.

Mas... E se ela perder o equilíbrio entre os eremitas e loucos que moram com ela?

Se tornará uma Sacerdotisa demente, aonde não há discernimento algum quanto ao real ou fantasioso que ela elucubra. 
Ou se deixará ser uma Sacerdotisa gananciosa do seu próprio saber, encurralada na sua torre ilhada, num "eremitar" nada espiritualizado ou somatório.

Sem equilíbrio em suma, nenhum construto se investe de valor.

Verossimilhanças...

Sempre grata,

Luciana Onofre




4 comentários:

  1. Perfecto Lu!! estoy sumamente emocionada por leer aqui el fructo de nuestra conversacion.Pasastes para palabras las imagenes que me venian a la mente..Para mi el eremita es tambiém la renuncia al convivio social y al convivio de quienes se aman.. una renucia por opcion, por supuesto pero q no deja de ser dolorosa, ya el Loco no piensa en esta renuncia porque no le importa el dolor que causa a aquellos q lo quierem. La opcion consciente y la indiferencia.

    TE QUIERO MUCHO MIVIDA!!

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  2. (Lutche, não sei se já lhe disse, mas gosto de ler seus textos, pois são de uma incrível proximidade com o leitor, fica como bate-papo que enobrece...) Carambolas! Essa luta incessante é clara, e você a definiu muito bem. Em meu caminho, ando às voltas com algumas decepções, sabe... Até pensei em desistir, porque dói às vezes em perceber a minha meia-volta pagã algumas criaturas que se deixam pendular em suas psicoses, se tornando meros pedestais a serem endeusados, uma mistura de quem quer distância dos 'meros mais' e ao mesmo tempo necessitam da idolatria dos mesmos... Se eu vier a ser, não quero ser uma sacerdotisa assim. Na verdade, eu não quero ser um ser humano assim! Se não ha como controlar bem e sempre, que pelo menos eu siga me 'equi-libriando'...

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  3. Obrigada amore em deixar-me saber o que pensas! Fico honrada!

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